Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A ti, "homem"

por MPS, em 20.07.16

A ti, "homem",

A culpa não é (só) tua, mas de quem (não) te ensinou.

É da educação que incita à falta de respeito. Começa no pai que assobia à rapariga de mini-saia enquanto o filho o observa e aprende, nas séries de televisão em que o homem dá uma palmada no rabo da amante “sem más intenções”, nas publicidades que objetificam as mulheres para a construção de um clima “sensual”, nos colegas da escola que espreitam as meninas no balneário, “inocentemente”, porque é tradição.

 

Aqui há uns dias tive de percorrer, a pé, uma estrada extensa na área do Grande Porto. É uma estrada muito movimentada e ladeada de polos industriais. Passaram por mim carros e camiões que buzinaram, abriram a janela e gritaram piropos mais ou menos perversos. Na brincadeira, claro, como tu às vezes fazes.

Quando estava prestes a chegar ao meu destino um senhor com idade para ser meu avô abordou-me. Começou por dizer que eu era “mesmo boa” e me “comia toda”, e depois sugeriu que eu lhe fizesse “um bico”. A minha mente tem tendência a divagar mais do que eu gostaria, e, imediatamente, imaginei que o agredia. Eu sei que a violência nunca é a solução, mas, na minha cabeça, eu apliquei-lhe uma joelhada certeira entre as pernas. Ele era fraquinho, cambaleou, caiu e bateu com a cabeça no passeio. Foi internado no hospital e aprendeu a lição, nunca mais voltou a importunar mulheres até ao fim da vida.

Não fiz nada do que imaginei, e ele continuou a gritar. Acelerei o passo até à estação de comboios, sem olhar para trás, a desejar que aquilo acabasse rapidamente. Senti-me tão desconfortável (outra vez), tão vulnerável e, acima de tudo, com tanta raiva.

Sabes, não é uma situação pouco usual; o que não a torna aceitável. É sempre assim, e tenho vergonha de morar num país em que não posso andar na rua à vontade, sobretudo no verão, com os vestidos curtos de que tanto gosto e os calções que tornam suportáveis as temperaturas mais elevadas, por existirem pessoas como tu. Não é lisonjeiro, não é reconfortante para a nossa auto-estima, como tu pensas. Seja qual for o contexto, este comportamento é injustificável.

 

Já vivi situações bastante piores com homens sexualmente perturbados. Em 24 anos de vida já presenciei 3 – TRÊS! – homens a masturbarem-se no meio da rua, que me chamaram para que eu os visse. Deparei-me com o primeiro quando tinha cerca de 14 anos: ele estava dentro de uma carrinha e chamou-me a mim e às minhas colegas. Nós julgámos que ele estava perdido; mas ele perguntou-nos se queríamos um chupa-chupa e continuou a masturbar-se. O segundo também o fez dentro de um carro, em plena luz do dia, e o terceiro estava a andar ao pé de minha casa, à noite.

A maior parte das minhas amigas e colegas já presenciou cenas de exibição sexual pública e todas, sem exceção, já ouviram propostas indecentes de desconhecidos.

 

Eu sei que as situações de exposição são mais graves que os “piropos” que ouço regularmente, mas, mesmo assim, que cultura é esta que os banaliza?

Desde agosto do ano passado que as propostas de teor sexual são consideradas delito em Portugal e podem dar até 3 anos de prisão (caso sejam dirigidas a menores de 14 anos). Mas, na prática, o que é que eu te faço? Vou à esquadra, denuncio o sucedido? E se não há testemunhas, como é que conferem a veracidade das minhas palavras? E até que ponto um “faz-me um bico” será levado a sério como acusação?

 

Tu, claro, és o extremo mais grave e doentio. Mas não me admira que, em criança, tenhas presenciado maus tratos a mulheres, tenhas, mais tarde, tu próprio feito propostas de caráter sexual às meninas que passavam na rua, até chegares ao ponto de violar porque um “não” te soa a “sim”. A sociedade educou-te para seres "homem" e este grande final foi apenas a consequência dessa tua educação.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 19:38

Por vezes, ponho-me a pensar o que é que te passou pela cabeça para te apaixonares por mim.

Nos dias em que acordo a transbordar auto-estima, quero acreditar que ficas hipnotizado pelo meu sorriso inocente e me consideras a melhor pessoa do mundo. Que, quando me vês, tudo à nossa volta desaparece, que o mundo para e o teu coração bate mais depressa a cada palavra inteligente e pertinente que eu digo. Tudo isto, claro, enquanto passo a mão pelo meu cabelo loiro e esvoaçante, que condiz perfeitamente com o meu corpo de super modelo e o meu QI fora do normal.

Depois, rio-me às gargalhadas com estas considerações, que não podem estar mais distantes da realidade. O sorriso é tudo menos inocente, a maioria das minhas palavras são impulsivas e nada ponderadas, não sou particularmente bonita e estou muito, muito longe de ser uma pessoa boa e altruísta, capaz de se destacar entre todas as outras alminhas desinteressantes que passeiam pelas ruas. Portanto, se calhar a atração que sentes deve-se unicamente ao meu rabo empinado e ao meu sentido de humor atrevido (que agora te agrada mas, eventualmente, te faria sofrer).

De qualquer forma, desengana-te. Esse fascínio há de te passar rápido. Sou a pior namorada do mundo e a pessoa mais inconstante do nosso Sistema Solar. Não sou capaz de te retribuir como mereces.

Mas de uma coisa podes ter a certeza. Quero mesmo, mesmo muito, que sejas feliz.

(E eu também me quero apaixonar outra vez).

 

 

Da minha incursão de ontem pelas redes sociais, quer-me parecer que há quatro tipos de “notícias” de S. Valentim que se destacam no meu feed do facebook:

  • Fotografias de namorados em locais românticos com hastags do tipo #myvalentine #diadosnmamorados, #love, entre outras;
  • Reflexões pseudo filosóficas de pessoas que, muito ofendidas, alertam que “o dia dos namorados deve ser todos os dias”; “os namorados não se devem exibir no facebook, mas viver a sua felicidade ofline”; “há relações condenadas que tentam disfarçar o tédio e a traição através de fotografias apaixonadas nas redes sociais”;
  • Textos de pessoas que não namoram e sentem a necessidade de relembrar ao mundo como é importante manter o amor-próprio e como estão bem melhor sozinhas e independentes;
  • Fotografias de grupos de amigos que aproveitaram este dia para se divertirem em frente a jarros de sangria ou finos fresquinhos a condizer com o tempo que faz lá fora.

 

Atualmente, não namoro. Quando namorava, gostava de manifestações pirosas. E, se me incomodasse a exposição online, não escreveria um blog pessoal, parece-me óbvio.

Os longos textos com que me deparo sobre as vantagens de não namorar fazem-me rir, benevolente. Soam-me a desculpas de quem não faz a mínima ideia do que é amar, e ser amado. Quando o sentimento é verdadeiro e correspondido, amar é prioritário, e torna-nos mais felizes. Torna-nos melhores. Não há relações “sufocantes”, nem falta de tempo, nem problemas incontornáveis quando se ama de verdade. O amor-próprio é essencial, concordo, e é triste e lamentável anularmo-nos perante o outro, mas a partilha e a realização de ser feliz ao lado de quem se ama é o que há de mais bonito no mundo inteiro.

Se podemos viver sem amar? Podemos. Vivemos. Mas… viver feliz sem amar é como comer um pão quentinho acabado de sair do forno a lenha. É ótimo, não é? Sabe bem, não sabe? Mas, para ser mesmo, mesmo perfeito, falta a manteiga.

O amor é a manteiga no pão quentinho que é uma vida feliz.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:43

A Ana adora experimentar (roupa)

por MPS, em 08.02.15

Houve um tempo (que durou anos!) em que a Ana comprava uma peça de roupa e usava-a até a desgastar, até se sentir apertada ou o tecido rasgar ou desbotar. Namorava-a, devagarinho, na montra da loja, e, depois de a comprar, vesti-la tornava-se uma rotina que a preenchia.

 

Mas, certo dia, a Ana apercebeu-se que gostava de experimentar.

(Eu sei que, ao falar de carros, podemos usar a expressão test drive, quando temos a oportunidade de conduzir um modelo sem o comprar, sem qualquer compromisso, para termos a certeza da nossa futura decisão de compra. No caso da Ana, não sei se existe uma expressão em inglês; mas o que ela faz é, basicamente, a mesma coisa.)

 

Há uma política nas lojas em que compra que lhe permite devolver a peça ao fim de um determinado número de dias. Por isso, ela compra, guarda o talão na carteira, e veste-a, entusiasmada. Não assume qualquer compromisso, porque sabe que a pode devolver a qualquer altura e reaver o dinheiro gasto. Só tem de ter cuidado com um pormenor: não causar danos que impeçam a devolução. Danos irreversiveis, que não podem ser disfarçados, são inimigos de quem gosta mais de experimentar do que de adquirir.

 

Infelizmente, experimentar tem um limite temporal bem definido. A Ana adora experimentar mas há uma altura em que é obrigada a decidir. Se a devolve, e prossegue até à próxima loja, para comprar (e, depois, devolver), a peça de roupa da coleção mais recente, ou se assume que a quer a full time, que é mesmo dela, e deixa passar o prazo de devolução.

 

É que, depois de tomada a decisão, já não pode voltar atrás.

 

Por vezes acontece-lhe devolver uma camisola e cruzar-se, uns dias depois, com outra mulher que a traz vestida. Sente uns ciúmes inexplicáveis, irracionais, e apetece-lhe gritar: “hey! Essa era minha!”. Foi, já não é. Tiveste a tua oportunidade, Ana. Desperdiçaste-a porque quiseste experimentar outra e, agora já não há à venda. Essa saudade que estás a sentir é culpa tua.

Por outro lado, se optar por não a devolver, sabe que tem de lhe dar uso. Se nela investiu o seu dinheiro, deve vesti-la. Não pode esquecê-la a um canto, e continuar a experimentar desenfreadamente outras peças de roupa que tenciona descartar quinze dias depois.

 

Acho que a Ana se habituou a esta nova rotina de comprar, devolver, reaver o dinheiro e comprar outra peça que lhe desperte o interesse, por ser novidade, ou por outro qualquer motivo que nem ela sabe explicar. Não sei se é a sensação de querer algo novo, de fugir da rotina, de vivenciar experiências distintas sabendo que não se está a comprometer.

 

Não possui, na verdade, mas não se chateia.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 20:17

10 lições que aprendi em 2014

por MPS, em 01.01.15

10 lições que aprendi (ou reaprendi) em 2014 e que espero não me (voltar a) esquecer em 2015:

 

1. Não somos imortais e há riscos que não vale a pena correr.

 

2. As pessoas não são objetos. Por isso, não as trates como tal. Se estão sempre cá para ti, se se importam, agradece-lhes. Não são coisas em que pegas quando precisas; não as dês como garantidas, porque podem ir-se embora.

 

3. O mundo (à partida) não acaba hoje; há coisas que podes fazer amanhã. Tem calma. Pondera. Viver a vida ao máximo não significa experienciar tudo num dia, descontroladamente.

 

4. Se não estás bem, muda. Mesmo que digam que a tua vida é perfeita, que tens muita sorte e que não te podes queixar. Muda. Não vale a pena as pessoas que contam contigo sofrerem à tua espera, enquanto ganhas coragem para decidir o que já há muito tempo está decidido dentro de ti.

 

5. Enquanto a felicidade dos outros coincide com a tua, corre tudo muito bem. Mas quando tens de abdicar de parte dos teus caprichos para que os outros sejam felizes, há uma grande confusão entre o teu egoísmo e o altruísmo que tanto defendes. Na dúvida, a solução é teoricamente fácil, lembra-te: por muito que te pareça o contrário, não há nada que te faça mais feliz do que contribuires para a felicidade dos outros.

 

6. O que quiseste ontem às vezes não é o que queres hoje. Mas aquilo em que verdadeiramente acreditas mantém-se, e é por esses valores que te deves orientar, mesmo quando não fazes a mínima ideia por que caminho deves seguir.

 

7. Há coisas mais importantes na vida do que defender um ponto de vista até ao fim.

 

8. Amar é prioritário. É muito mais importante do que outra coisa qualquer. As pessoas que dizem o contrário só o fazem porque ainda não amam de verdade.

 

9. As tuas conquistas só sabem mesmo bem se te esforçares verdadeiramente para atingir os objetivos que traçaste.

 

10. "O que não te mata" não te deixa mais forte a curto prazo. Pelo contrário, enfraquece-te e pode deixar-te incapaz de reagir, de seres feliz. Só a longo prazo é que podes, eventualmente, beneficiar com o que sofreste.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:47

Ser Voluntário

por MPS, em 09.12.14

Na sexta-feira passada comemorou-se o dia internacional do voluntariado.

Quando, de manhã, cheguei ao trabalho, os meus colegas deram-me os parabéns. Percebe-se porquê: passo 8 horas e meia por dia a trabalhar e, na grande maioria do tempo que me resta… sou voluntária. É por isso que estou sempre a reclamar e a dizer que estou cansada, é por isso que já ninguém me atura a queixar-me!

 

Da empresa onde trabalho recebo um valor monetário, todos os meses. E sabe bem. Do voluntariado, não é dinheiro que recebo mas, acreditem recebo. E recebo muito.

 

Sou voluntária na maior associação de estudantes da Europa. Mergulhei nesta aventura no Porto, há 3 anos, pouco depois de regressar do meu período de estudos de Erasmus, em Roma. Atualmente envolvo-me ainda mais na rede, e faço parte da direção nacional.

O que sinto pela Erasmus Student Network é muito, muito difícil de explicar. Vou tentar, porque estando à vontade para escrever sobre (quase) tudo, tenho a incómoda sensação de que devia ser capaz de escrever também sobre esta parte tão importante da minha vida. Já tentei muitas vezes, mas nunca consegui expressar-me.

Às vezes dou por mim a sorrir sozinha, só a pensar na ESN. Outas vezes encontro-me a chorar compulsivamente porque as coisas não correram como eu queria. Mas acho que é mesmo assim, quando se está apaixonada.

Eu tento dar tudo de mim à ESN mas, tenho a certeza, continuo a receber muito mais dela do que sou capaz de lhe dar. Porque a ESN é a maior escola que já frequentei. Aprendo tanto, todos os dias. Talvez achem que estou a exagerar – se calhar estou iludida. Mas eu sinto que ela me torna, cada vez mais, uma pessoa melhor. Faz-me crescer. Faz-me acreditar em coisas que, por vezes, me esqueço. Faz-me sentir que o mundo não tem fronteiras e que temos todos asas muito grandes para voarmos até onde quisermos. Faz-me orgulhar do meu país e da minha geração; dos estudantes e dos jovens adultos que acreditam no Erasmus e no seu encore.

Quando chego a casa, à noite, e me deparo com uma série de emails e mensagens por responder, preciso de respirar fundo, muito fundo, muitas vezes. É que a ESN toma-me tanto tempo que às vezes fico em pânico só de pensar no tempo que ela me toma… mas tomara eu poder dedicar-lhe ainda mais tempo do que o tempo que tenho para lhe dar!

 

Depois, há o CASA. Sou voluntária no Centro de Apoio ao Sem-Abrigo uma vez por semana. As quartas-feiras à noite são o meu refúgio: esqueço o trabalho, os problemas, até a ESN, ainda que por poucas horas. O mundo à minha volta desaparece. Divirto-me a cozinhar, e fico com as mãos a cheirar muito, muito a comida. Depois, em casa, lavo-as com água morna e muito sabonete – mas isto só de madrugada, porque no CASA não há água quente (senhor Rui Moreira, espero que esteja a ler isto!).

Gosto de ver as pessoas a comer a comida que eu preparamos e distribuímos. Gosto quando fazemos a mais e as pessoas podem repetir, e não gosto mesmo nada quando falta. O CASA e a sua rotina fazem-me feliz: os alimentos que o restaurante Abadia ou que a GNR nos dão, o encontro com os meus amigos naquela cozinha minúscula que fica inundada quando chove, o sorriso das pessoas quando gostam da comida, as piadas que trocamos e a sensação de que fizemos alguém feliz, por muito pequeno que tenha sido o nosso gesto.

 

Assim, e apesar de serem organizações completamente diferente, o CASA é como a ESN. Eu é que sou a voluntária, mas o que recebo é sempre muito mais do que o que dou.

 

Por isso, da próxima vez que eu me queixar de que estou cansada, de que trabalho muito, de que não tenho vida social, nem tempo para nada… podem rir-se de mim e mandar-me à merda. Porque a verdade é que tenho tudo o que quero, e muito mais do que mereço.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:44

Triste

por MPS, em 26.10.14

Quando eu era mais nova, havia uma altura do ano em que me sentia triste.

 

Este fenómeno acontecia entre janeiro e fevereiro, na época dos exames da faculdade. Eram os meses em que mal saía de casa: não tinha aulas, as atividades de Praxe também interrompiam, e o meu namorado e os meus amigos estavam colados aos livros. Mas, como eu nunca fui de estudar muito, o tempo real de estudo era ínfimo comparado com o tempo passado a pensar noutras coisas e a procrastinar.

 

A minha mãe dizia-me que eu me sentia triste porque tinha demasiado tempo livre e pensava muito. Que quando temos muitas coisas para fazer, não temos tempo para nos sentirmos tristes.

 

A minha mãe estava errada. Hoje vivo uma vida muito ocupada e continuo a sentir-me triste de vez em quando. Descobri que não é preciso termos demasiado tempo livre: há sempre tempo para estar triste, mesmo quando não há tempo para mais nada.

 

Também descobri que tenho vergonha de mostrar tristeza.

Nós, os jovens adultos, gostamos de pessoas felizes. De sorrisos confiantes, de orelha a orelha. De gargalhadas estridentes, de fotografias no facebook, na praia, rodeados de amigos; de hastags que referem que amamos o trabalho, o casamento, a família e o mundo cor-de-rosa no geral.

Pelas pessoas tristes, sentimos pena. Queremos que se afastem. A sua presença causa-nos desconforto.

Sim, eu prefiro sorrir, empinar o rabo, passar a mão pelo cabelo e olhar as pessoas de lado porque, aparentemente, transpiro auto estima, do que admitir que estou triste.

 

Também prefiro a Mariana de olhos arregalados e sentido de humor apurado do que a Mariana que chora. Sou uma pessoa de choro demasiado fácil e isso leva-me a crer que a maioria das pessoas que me conhece mal e me vê chorar, me acha fraca.

É que chorar seria bom se pudéssemos fazê-lo sozinhos no nosso quarto, sempre acompanhados de quem nos ama ou se as lágrimas fossem invisíveis. Sendo bem visíveis, sobretudo para quem fica com os olhos vermelhos e muito brilhantes (não vou falar do ranho, que isto é um blog sério), se as sentimos a correr pelas bochechas, contra a nossa vontade, num ambiente em que toda a gente está feliz, somos o foco das atenções.

E o alívio em deitar tudo cá para fora sob a forma de água salgada transforma-se em constrangimento por destoarmos do ambiente festivo.

 

Por fim, cheguei à conclusão que estar triste me faz sentir culpada. Tendo uma vida privilegiada em comparação com a de muitas pessoas, tenho perfeita noção de que me deixo afetar por episódios que, racionalmente, sei serem irrelevantes.

Os meus problemas são insignificantes mas têm o tamanho do mundo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 21:18

Amílcar e os Cães

por MPS, em 18.08.14

Vamos chamar à pessoa A, Amílcar. A, de Amílcar, parece-me bem.

 

De certeza que também conhecem um Amílcar. Ele tem um sério problema no que toca a relações: não é capaz de estar sozinho. Não estamos a falar de alguém que aprecia manter relações sexuais com todo o ser humano do sexo oposto que respira, não; o Amílcar gosta de relações, apesar de não lhes chamar esse nome. Gosta de ter uma mulher sempre à sua espera, segura. Para mimos, beijos, sexo e um pouco de conversa, quando calha, mas, sobretudo, para ter a certeza que não está sozinho.

 

Têm um animal de estimação? Às vezes passam dias sem lhe dar atenção, mas sabem que, quando chegarem a casa, ele está lá à vossa espera, de cauda a abanar para vos receber com carinho? O Amílcar gosta de ter à sua espera, em vez de um cão, uma mulher; no fundo é quase a mesma coisa: menos peluda, à partida, mas as lambidelas mantém-se.

 

O Amílcar conheceu a mulher B, a Beatriz, numa festa de um amigo. Alta, magra, de olhos grandes e verdes, e corpo de modelo. Como esse era um dos raros momentos da sua vida em que não namorava, achou que seria perfeito iniciar uma relação com ela. Afinal, era bonita, se os vissem juntos, passava uma boa imagem.

Como faz sempre que se aventura numa nova relação, decidiu pôr os pontos nos Is. A Beatriz não pode aproximar-se / falar / tocar ou respirar a menos de 20 cm de outro homem. Não pode aceitar bebidas de ninguém, nem comentar publicações de amigos nas redes sociais, e ai dela que fique mais de 10 minutos sem lhe responder a uma mensagem! Isso não se faz.

O Amílcar pode fazê-lo, claro, mas isso é porque tem entre as pernas o que a Beatriz não tem (ao nível físico, porque, no sentido metafórico, não os tem, de todo). Além disso, é preferível evitar fotografias de ambos demasiado próximos no facebook. Porque o Amílcar gosta de ter as portas abertas, para o caso de surgir um pôr-do-sol no horizonte. No fundo, a Beatriz namora com o Amílcar, mas o Amílcar não namora com a Beatriz. Oficialmente, claro, são muito felizes.

 

É que ele gosta de olhar para outros cães. Para outras mulheres, desculpem, enganei-me. Volta e meia aparece uma muito bonita, a C, chamemos-lhe Carla, e o Amílcar fica fascinado pela sua aparência e tenta seduzi-la. Fazem sexo (e pouco mais, que o Amílcar não é muito dado a mimos, é sexo bruto, apenas), ele jura que não tem namorada mas, pelo sim pelo não, é melhor não assumir o que se passou, é um segredo só deles!

Claro que o mesmo segredo é partilhado com a Diana, porque ela também é muito bonita, desta vez é de outra raça, é loira e não morena e, enfim, um homem tem de experimentar de tudo! Diz à Diana que não tem namorada, que ai dele meter-se em relações, é um homem livre e odeia compromissos mas, pelo sim pelo não, não vamos contar nada a ninguém!

 

Quando bate a saudade, ou não há mais ninguém disponível, o Amílcar telefona ao cão oficial. Desculpem, à namorada. E a Beatriz tem a certeza que ele só tem olhos para ela, por isso, é vê-la de língua de fora a saltar-lhe para o colo, sempre que ele quer.

 

Au, au.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 23:54

Um dos Motivos Porque me Assustas

por MPS, em 09.08.14

Já passou algum tempo e por isso, para ser sincera, não posso jurar que a ideia que tenho tua é real. Provavelmente, a minha mente confunde-a, misturo pessoas e expressões, torno-te, sem querer, diferente do que és.

Do que me lembro mais nitidamente é do teu sorriso.

Houve uma altura em que ver-te sorrir me fazia sorrir. Qual silogismo. Se A sorri, B sorri. A sorri. Logo, B sorri.

Mas agora, irrita-me. Gosto tanto dele quanto o odeio.

Acredito, genuinamente, que não é verdadeiro.Tenho a sensação estranha que estás sempre a sorrir, sem motivo, e isso assusta-me. Parece que vives num mundo cor-de-rosa e perfeito... É o sorriso mais bonito que eu já vi na minha vida e, ainda assim, acho que é hipócrita. 

Dá-me vontade de te abanar e gritar “pára, pára de sorrir”, esse sorriso idiota, que vai do Porto até à lua (e volta, da lua ao Porto). É impossível alguém ter um sorriso assim tão grande.

 

És como o protagonista de um anúncio a uma pasta de dentes que eu não quero comprar.

 

Mas a minha perspetiva de beleza também mudou. Quando o teu sorriso me fascinava em vez de me causar desconforto, eu pensava de outa forma em relação ao que me ficava bem.

No nosso primeiro encontro, eu calcei as sapatilhas brancas, as calças de ganga escuras e a sweatshirt vermelha e grossa com carapuço. E eu achava que estava linda. Porque as calças eram de ganga, mas eram justas – e eu nunca usava calças justas! Era a peça de roupa mais feminina que eu tinha.

Eu achava que estava linda e que ias cair aos meus pés.

E caíste.

Mas, nessa altura, eu também achava o teu sorriso lindo e nada assustador. Shame on me.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 17:23


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Posts mais comentados


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D