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Quando contei que ia trabalhar um mês na China, alguns dos meus amigos disseram, visivelmente entusiasmados, que iria adorar a experiência e que tinha muita sorte.

Outras pessoa (bastantes...) responderam com uma série de recomendações e comentários sobre poluição tão espessa que nem se consegue ver o azul do céu, calor sufocante que ninguém aguenta, gastronomia que inclui cães e gatos semivivos às refeições, hábitos culturais traumatizantes para os ocidentais, pedidos de vistos negados sem motivo, pessoas antipáticas e pouco higiénicas e uma série de outras "advertências" às quais eu sorri de forma mais ou menos convicta e que me deixaram ansiosa; e eu nunca tive medo até as ouvir.

E agora estou aqui, disposta a perceber se estes preconceitos todos que trouxe na mochila fazem sentido, ou se os posso deixar cá ficar.

 

Preconceito #1 – Calor insuportável

 

Parece que já passou imenso tempo, mas a verdade é que nem uma semana. Cheguei ao aeroporto do Porto a uma quinta-feira e, até então, o nosso “verão” tinha registado temperaturas bastante abaixo do normal. Claro que, mal me vim embora, o calor veio, aparentemente, para ficar. Neste momento, em Portugal, há cidades em que os termómetros marcam 44'C.

 

Em Xangai também é díficil suportar o clima: já experienciei 35'C, mas sei que me esperam dias ainda mais quentes, e que não se trata de uma “vaga de calor”, mas de um verão típico, até relativamente fresco. No dia em que cheguei choveu bastante, e é engraçada essa sensação de saber que está a chover, mas, ao mesmo tempo, vestir manga curta. Essa escolha que se faz quando se traz um guarda-chuva na carteira, mas sandálias nos pés.

A partir do dia seguinte e até hoje, nunca mais choveu, o sol brilha com força no céu azul (sim, o céu é azul mesmo com a poluição, mas isso é outro preconceito que vou explorar mais tarde) e nem à sombra se está realmente confortável. No sábado andámos quilómetros pela cidade e confesso que me custou. Também é curioso perceber que até as noites são quentes: ainda que se note alguma diferença em relação ao dia porque o sol já se pôs, as temperaturas mínimas nunca descem muito abaixo dos 30 graus.

 

 

A grande diferença entre estar no Porto e em Xangai na minha rotina é que, em Xangai, não sinto calor em locais fechados. Em Portugal, a esta hora, eu estaria no andar de baixo de minha casa (o único em que se consegue respirar no verão), com as luzes todas apagadas, de cuecas e, eventualmente, ao pé de alguma ventoinha antiga que ainda conservasse. Em Xangai, eu entro no meu escritório e já alguém ligou o ar condicionado umas horas antes. Eu vou a um restaurante e o ar condicionado está ligado, bem como no metro, na maioria dos autocarros, nas salas de reuniões e seminários, nos cafés, na Universidade, na cantina e, para minha felicidade, na residência universitária onde vivo e, em particular, no meu quarto. É impensável imaginar Xangai sem ar condicionado em qualquer espaço fechado e essa realidade não me é, de todo, familiar. É um luxo ao qual não estou acostumada e que torna o meu dia-a-dia bem mais fácil.

 

 

Apercebi-me ainda que a forma como vemos o sol é muito diferente na Europa e na China. Fiquei bastante surpreendida porque as voluntárias que acompanharam os estudantes na visita guiada pela cidade vestiam todas – sem exceção – casacos ou camisolas de manga comprida. Estavam 35'C e eu desejei estar de bikini numa qualquer praia do Algarve – ou de Moledo, até a água gelada de Moledo calhava bem. De maneira que, assim que conquistei a confiança de uma das meninas, perguntei porque raio estavam todas de casaco. E ela explicou-me que os chineses, e, particularmente, as chinesas, têm muito cuidado com o sol e evitam ao máximo expor a pele. Por um lado, por motivos de saúde, pois levam muito a sério as consequências que podem advir da exposição solar; por outro lado porque o conceito de “beleza” na mulher chinesa pressupõe a pele o mais branca possível. A jovem voluntária com quem falei gabou-se várias vezes, muito orgulhosa do casaco que trazia vestido, por ser fresco e fino, mas impedir qualquer exposição solar, ter carapuço e proteger a cara.

De facto, é muito comum ver chinesas a andar na rua de guarda-chuva, mesmo quando não chove. Usam-no como forma de se protegerem do sol e do calor, independentemente da idade.

 

timg.jpg

 

Já eu, sou bastante morena, sobretudo após ter ido à praia algumas vezes este ano, o que é visto com maus olhos por aqui, porque “o meu tom de pele não é considerado bonito”. Não deixo de ter o meu encanto por ser europeia (vou escrever um artigo inteiro sobre o fascínio que os chineses têm sempre que se deparam com alguém de traços físicos não ocidentais!) mas as minhas colegas alemãs, loiras, altas, e muito branquinhas (como a Fabiola, na foto), essas é que cumprem todos os requisitos para se ser bonito sem abdicar da "originalidade" nem descurar a saúde, na China!

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publicado às 03:20



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