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Triste

por MPS, em 26.10.14

Quando eu era mais nova, havia uma altura do ano em que me sentia triste.

 

Este fenómeno acontecia entre janeiro e fevereiro, na época dos exames da faculdade. Eram os meses em que mal saía de casa: não tinha aulas, as atividades de Praxe também interrompiam, e o meu namorado e os meus amigos estavam colados aos livros. Mas, como eu nunca fui de estudar muito, o tempo real de estudo era ínfimo comparado com o tempo passado a pensar noutras coisas e a procrastinar.

 

A minha mãe dizia-me que eu me sentia triste porque tinha demasiado tempo livre e pensava muito. Que quando temos muitas coisas para fazer, não temos tempo para nos sentirmos tristes.

 

A minha mãe estava errada. Hoje vivo uma vida muito ocupada e continuo a sentir-me triste de vez em quando. Descobri que não é preciso termos demasiado tempo livre: há sempre tempo para estar triste, mesmo quando não há tempo para mais nada.

 

Também descobri que tenho vergonha de mostrar tristeza.

Nós, os jovens adultos, gostamos de pessoas felizes. De sorrisos confiantes, de orelha a orelha. De gargalhadas estridentes, de fotografias no facebook, na praia, rodeados de amigos; de hastags que referem que amamos o trabalho, o casamento, a família e o mundo cor-de-rosa no geral.

Pelas pessoas tristes, sentimos pena. Queremos que se afastem. A sua presença causa-nos desconforto.

Sim, eu prefiro sorrir, empinar o rabo, passar a mão pelo cabelo e olhar as pessoas de lado porque, aparentemente, transpiro auto estima, do que admitir que estou triste.

 

Também prefiro a Mariana de olhos arregalados e sentido de humor apurado do que a Mariana que chora. Sou uma pessoa de choro demasiado fácil e isso leva-me a crer que a maioria das pessoas que me conhece mal e me vê chorar, me acha fraca.

É que chorar seria bom se pudéssemos fazê-lo sozinhos no nosso quarto, sempre acompanhados de quem nos ama ou se as lágrimas fossem invisíveis. Sendo bem visíveis, sobretudo para quem fica com os olhos vermelhos e muito brilhantes (não vou falar do ranho, que isto é um blog sério), se as sentimos a correr pelas bochechas, contra a nossa vontade, num ambiente em que toda a gente está feliz, somos o foco das atenções.

E o alívio em deitar tudo cá para fora sob a forma de água salgada transforma-se em constrangimento por destoarmos do ambiente festivo.

 

Por fim, cheguei à conclusão que estar triste me faz sentir culpada. Tendo uma vida privilegiada em comparação com a de muitas pessoas, tenho perfeita noção de que me deixo afetar por episódios que, racionalmente, sei serem irrelevantes.

Os meus problemas são insignificantes mas têm o tamanho do mundo.

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publicado às 21:18

Vote. E, já agora, dê sangue.

por MPS, em 13.10.14

Às vezes precisamos de apanhar um grande susto para, finalmente, agirmos. E isso é um bocadinho triste, porque podíamos ter feito tanto, tão mais cedo.

 

No passado dia 4 de outubro celebrei 23 anos e resolvi ir dar sangue ao IPO do Porto. Não me orgulho de dizer que foi a minha primeira vez. Até ao meu aniversário, arranjava sempre desculpas, algumas mais válidas que outras, para não o fazer.
Ou porque não tinha tempo.
Ou porque tinha feito sexo com mais do que uma pessoa em 4 meses.
Ou porque tinha medo de descobrir que tinha uma doença grave.
Ou porque temia que me acontecesse o mesmo que a alguns amigos meus, que desmaiaram ou se sentiram mal durante a dádiva.
Ou porque não pesava 50 kg, o peso mínimo exigido para os dadores.

 

No meu dia de aniversário, reparei que estava mais gorda, andava mais perto dos 51kg do que dos 50; sentia-me saudável, tinha feito análises há pouco tempo com resultados animadores, e percebi que já nada me impedia de o fazer. Nunca tive medo de agulhas, nunca me fez confusão ver sangue; tinha, sobretudo, preguiça. Realmente, nunca há tempo quando não queremos mesmo ter tempo; mas há sempre tempo se quisermos de verdade.

 

O processo é rápido, indolor, e não existe qualquer possibilidade de contrair doenças, porque todo o material utilizado na recolha é estéril e descartável. E – o mais importante – dar sangue salva vidas. Mesmo.
E cada vez mais: basta pensarmos, por exemplo, numa realidade que já não passa despercebida aos portugueses: a incidência do cancro em Portugal está a aumentar, e estima-se que, todos os anos, no nosso país, morrem mais de 25 mil pessoas da doença oncológica.

 

Dar sangue foi uma experiência muito interessante. Primeiro, porque me deram bolachas de chocolate – antes e depois de me injetarem, para garantir que não me sentia mal. Depois, e agora escrevendo num tom mais sério, porque as enfermeiras que me receberam no IPO foram extremamente simpáticas, porque as condições em que é feita a dádiva são excelentes, porque não custa absolutamente nada a não ser 20 minutos do nosso tempo, deitados numa cadeira reclinável, com música de fundo e a televisão ligada.

Mas, apesar de ter corrido tudo tão bem comigo, no IPO do Porto as notícias não são animadoras: o presidente do instituto revelou, em março, que houve uma redução significativa de dádivas de sangue no último ano, e apelou à comunidade que se voluntarie para ajudar a suprir as necessidades desta unidade de saúde: é necessário elevar em 12% as doações, num mínimo de 40 colheitas de sangue por dia, para o IPO ser autossuficiente!

 

Eu já sabia disto tudo, e mesmo assim, nunca tinha dado sangue. Que vergonha.

 

Na sala de espera, enquanto devorava as bolachas de chocolate que me ofereceram, comecei a ler um dos panfletos que estava em cima da mesa. Dizia assim:
“Dar sangue é um dever cívico”.
Quando ouço falar em “dever cívico”, lembro-me sempre do direito de voto. Das campanhas para diminuir a abstenção, que referem que, mais do que um direito, votar é um dever. Lembro-me dos meus amigos, jovens adultos que insistem que, se não votarmos, não nos podemos queixar das políticas implementadas pelo governo. Das pessoas que sentem uma “obrigação moral” em cumprir o seu dever e, por isso, se levantam da cama ao domingo de manhã, para votar. À minha volta, parece que quem se abstém é um bocadinho mal visto.

 

Portanto, cheguei à conclusão que a grande maioria dos meus amigos (eu incluída, até ao passado dia 4), se levanta da cama a um domingo de manhã, porque acredita que votar é um dever, é uma obrigação, e porque quer ter influência na escolha dos políticos que lideram o país, visto que as suas decisões nos afetarão diretamente. Mas, para dar sangue, não nos levantamos da cama. Parece que dar sangue não acarretas essa “obrigação moral”, esse “dever”. Como se não nos influenciasse diretamente.

 

Dar sangue não vai fazer com que o governo se altere e as políticas passem a ir de encontro ao que desejamos. Não vai.
Dar sangue só salva vidas.
E, sim, pode afetar-nos diretamente.
Ou se calhar não, porque, enfim, as coisas más só acontecem aos outros. Não é?

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publicado às 23:37


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