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Os nossos Demónios

por MPS, em 08.09.15

Eu nunca tinha visto ninguém a injetar-se. Se me tivessem perguntado dois ou três dias antes, provavelmente ter-me-ia fingido a maior entendida nesse assunto. Já tinha experimentado umas quantas drogas, mas leves – nada que se comparasse minimamente às injetáveis. Porém, teria mentido para parecer mais experiente do que sou; teria respondido que sim, que já tinha conhecido imensa gente que o faz, que não me metia medo.

 

A verdade é que fiquei em estado de choque, com vontade de fugir. Curiosamente, os meus pés não me obedeceram, e mantive-me imóvel, especada a olhar. Acho que a embalagem de comida não me escorregou das mãos por um triz.

- Desculpe, menina. Desculpe. – invadiu-me uma raiva surda porque ele estava a pedir desculpa, mas não parava… porque é que isso continua no teu braço? Respirei fundo.

- Eu… eh…  - as palavras estavam tão presas na garganta como os pés no chão. – Eu… não tem mal. Quer uma refeição quentinha?

Não me lembro se estava frio. Conhecia bem aquela rua, ao pé da Casa da Música, no Porto. Fazia o mesmo percurso desde que era voluntária. Mas aquilo, aquilo nunca tinha visto.

- Obrigada menina. E, mais uma vez, desculpe.  Deixe aqui ao pé de mim, que eu já como.

Pousei a refeição e preparava-me para correr, quando ele perguntou:

- Queres falar?

- Hum… Não tenho muito tempo.

- Senta-te aqui um bocadinho. Quero falar-te dos meus demónios.

 

A voz do rapaz (ou seria um homem?) arrastava-se. Não me sentei, mas fiquei a ouvir. Não me lembro das palavras exatas, mas disse qualquer coisa do género:

- A puta da minha ex trocou-me por um cabrão qualquer. – fez uma pausa (aquela porcaria continuava injetada, e eu sem conseguir pedir que ele a tirasse. Que situação ridícula: “olhe, desculpe, não quer retirar essa seringa do braço, por favor?”) - Não fui o melhor namorado do mundo. Eu tinha ciúmes e enchia-a de porrada. Mas era porque gostava dela, e ela era minha. Porque sabia que os outros gajos reparavam nela – e ela deixava. Depois fartou-se, a puta. Nunca mais a vi. Mas eu todos os dias vejo a cara dela. Lembro-me bem. São os demónios que encontro antes de dormir.

 

Não fui nem um bocadinho altruísta. Só me queria ir embora. Queria tanto correr para o Burguer King, enfardar nuggets com molho de queijo, e deixar o homem ali sozinho.

- E os teus demónios, princesa?

Abri bem os olhos e fiquei a pensar na palavra. “Demónios”. Os meus demónios? Só me lembrava de um. Deixei de pensar nos nuggets.

- Tive um. No meu primeiro ano de faculdade. Mas agora acho que já superei. Quando penso nele parece que estou a ver um filme e que se passou com outra pessoa e não comigo, e não dói.  – o que eu disse ao rapaz (ao homem?) era tão verdade que me surpreendeu.

 

- Achas que nunca vais estar aqui, não é?

Não respondi. E fiz aquilo que nunca se deve fazer; julguei e opinei:

- Devias largar isso. Deixa-me ajuda-te. Eu vou pedir ajuda a alguém e vamos levar-te ao hospital.

Nessa noite sonhei com o meu demónio e acordei de madrugada a transpirar. Percebi que a única diferença entre o impacto dos nossos demónios é a qualidade do berço onde nascemos e a família que nos acolhe. O que é que me teria acontecido quando conheci o meu demónio se não viesse de uma família rica e que me ama? Seria assim tão forte, sozinha? Ou seria eu ali deitada?

 

Não o ajudei.

 

Nunca mais o vi, ao rapaz da rua Júlio Dinis.

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publicado às 21:46

Ser Voluntário

por MPS, em 09.12.14

Na sexta-feira passada comemorou-se o dia internacional do voluntariado.

Quando, de manhã, cheguei ao trabalho, os meus colegas deram-me os parabéns. Percebe-se porquê: passo 8 horas e meia por dia a trabalhar e, na grande maioria do tempo que me resta… sou voluntária. É por isso que estou sempre a reclamar e a dizer que estou cansada, é por isso que já ninguém me atura a queixar-me!

 

Da empresa onde trabalho recebo um valor monetário, todos os meses. E sabe bem. Do voluntariado, não é dinheiro que recebo mas, acreditem recebo. E recebo muito.

 

Sou voluntária na maior associação de estudantes da Europa. Mergulhei nesta aventura no Porto, há 3 anos, pouco depois de regressar do meu período de estudos de Erasmus, em Roma. Atualmente envolvo-me ainda mais na rede, e faço parte da direção nacional.

O que sinto pela Erasmus Student Network é muito, muito difícil de explicar. Vou tentar, porque estando à vontade para escrever sobre (quase) tudo, tenho a incómoda sensação de que devia ser capaz de escrever também sobre esta parte tão importante da minha vida. Já tentei muitas vezes, mas nunca consegui expressar-me.

Às vezes dou por mim a sorrir sozinha, só a pensar na ESN. Outas vezes encontro-me a chorar compulsivamente porque as coisas não correram como eu queria. Mas acho que é mesmo assim, quando se está apaixonada.

Eu tento dar tudo de mim à ESN mas, tenho a certeza, continuo a receber muito mais dela do que sou capaz de lhe dar. Porque a ESN é a maior escola que já frequentei. Aprendo tanto, todos os dias. Talvez achem que estou a exagerar – se calhar estou iludida. Mas eu sinto que ela me torna, cada vez mais, uma pessoa melhor. Faz-me crescer. Faz-me acreditar em coisas que, por vezes, me esqueço. Faz-me sentir que o mundo não tem fronteiras e que temos todos asas muito grandes para voarmos até onde quisermos. Faz-me orgulhar do meu país e da minha geração; dos estudantes e dos jovens adultos que acreditam no Erasmus e no seu encore.

Quando chego a casa, à noite, e me deparo com uma série de emails e mensagens por responder, preciso de respirar fundo, muito fundo, muitas vezes. É que a ESN toma-me tanto tempo que às vezes fico em pânico só de pensar no tempo que ela me toma… mas tomara eu poder dedicar-lhe ainda mais tempo do que o tempo que tenho para lhe dar!

 

Depois, há o CASA. Sou voluntária no Centro de Apoio ao Sem-Abrigo uma vez por semana. As quartas-feiras à noite são o meu refúgio: esqueço o trabalho, os problemas, até a ESN, ainda que por poucas horas. O mundo à minha volta desaparece. Divirto-me a cozinhar, e fico com as mãos a cheirar muito, muito a comida. Depois, em casa, lavo-as com água morna e muito sabonete – mas isto só de madrugada, porque no CASA não há água quente (senhor Rui Moreira, espero que esteja a ler isto!).

Gosto de ver as pessoas a comer a comida que eu preparamos e distribuímos. Gosto quando fazemos a mais e as pessoas podem repetir, e não gosto mesmo nada quando falta. O CASA e a sua rotina fazem-me feliz: os alimentos que o restaurante Abadia ou que a GNR nos dão, o encontro com os meus amigos naquela cozinha minúscula que fica inundada quando chove, o sorriso das pessoas quando gostam da comida, as piadas que trocamos e a sensação de que fizemos alguém feliz, por muito pequeno que tenha sido o nosso gesto.

 

Assim, e apesar de serem organizações completamente diferente, o CASA é como a ESN. Eu é que sou a voluntária, mas o que recebo é sempre muito mais do que o que dou.

 

Por isso, da próxima vez que eu me queixar de que estou cansada, de que trabalho muito, de que não tenho vida social, nem tempo para nada… podem rir-se de mim e mandar-me à merda. Porque a verdade é que tenho tudo o que quero, e muito mais do que mereço.

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publicado às 22:44


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